Difícil se contar. A tentativa
não vale nem um conto, é certo, e por isso mesmo me conto e me reconto, buscar
por nadas me distrai. Chego, então, a um resultado não exato de mim. Mais e
menos que um. Inteira fracionada. Se me multiplico, o resultado sou eu? Foi
essa a operação que me fez ver a vida com olhos que não eram, mas eram, meus?
Contar-me, então, é contar-nos.
Mas não há dedos. Nem mãos. E penso que não são pés esses que ora vejo. São
asas que me levaram de um lugar a outro a outro a outro e a outros que ainda me
levarei.
Um corpo em repouso tende a
permanecer em repouso, e um corpo em movimento tende a permanecer em movimento,
assim como corpos e palavras em conflito tendem a permanecer em conflito. Mas
isso são tendências. Não se deve confiar nelas, ainda que se possa amá-las.
Amemos os conflitos! Como aquele
do moço e seu pai na Lavoura Arcaica; e aquele do escritor e Ela, num Futuro
para o qual não Voltarei; e também do Sr. Ninguém que certamente é mais que eu;
e todos os outros que existem ou não ou que devem existir e talvez nunca irão.
Toda história contada é
ficcional. Ainda que seja verdadeira. Sapo não pula por boniteza, mas, porém,
por precisão.
Difícil se contar. A tentativa não vale nem um
conto, é certo, e por isso mesmo me conto e me reconto, buscar por nadas me
distrai. Chego, então, a um resultado exato de mim. Dividida em muitos,
multiplicada em poucos, igual a nada, e fim.
Não houve pressentimentos, uma palavra final, um
fechar de olhos lentamente, um gesto heroico.
Sem close, sem
trilha sonora.
Nada.
Seu coração simplesmente parou às 19:25.
Era agosto, 21 de agosto, e isso não significa nada
caso esteja pensando em um sentido para essas palavras. Nada além de que no dia
21 de agosto às 19:25 seu coração parou.
A matéria pulsante que se escondia em seu peito
decidiu que não faria mais as atividades físicas e muito menos as sentimentais,
que não eram de sua obrigação.
Ficou inerte, imóvel. Tinha resistido a 6 finais de
Copa, encarado a morte do pai, passado pelos problemas juvenis, mas não suportou
o dia 21 de agosto.
Chamaram o médico, o desfribilador, o espírita,
o católico, o umbandista, o budista, o judeu, o islamita, o hinduísta, o ateu,
a família, os amigos, e até mesmo um antigo amor, do qual não se falará o nome,
pois antigos amores devem permanecer antigos.
Ninguém, nenhuma reza, nenhuma corrente elétrica,
nenhuma lei, regra ou mentira conseguiram que seu coração badalasse às 19:26.
Por fim, depois de tantas malogradas tentativas,
acataram sua decisão de não ser e voltaram às suas existências cardíacas.
A vida passou pelo tempo. O médico se aposentou, o
desfribilador envelheceu, o espírita, o católico, o umbandista, o
budista, o judeu, o islamita, o hinduísta e o ateu entraram em guerra, a
família se extinguiu, os amigos desapareceram e o antigo amor permaneceu.
Apenas ele não fez história, apenas ele não existiu, apenas
ele conservou-se, preso, atado, mudo, estático, precisamente às 19:25 do dia 21
de agosto, quando seu coração parou.
Esta semana esmoreci.
Trabalho, faculdade, relacionamento, dinheiro. Tudo confuso. Tudo em crise.
Adoeci. Chorei. Voltei pra Pirangi.
Revejo a avenida, o
coqueiro torto, o comércio, as casas... minha mãe. Ao vê-la, minha febre passa,
minha voz volta e minha cabeça para de doer. Tão pequena, tão magra. Culpo-me
por tê-la deixado. Culpo-me por não a resgatar.
Depois de choros abraços
que saudade como você tá eu tô bem não se preocupa por que não me avisou eu
cuido de você, já estamos em volta da mesa. Qualquer conversa e decisão
familiar, é sempre em volta da mesa. Pão café mussarela manteiga requeijão. O
que eu tinha mesmo?
De hora em hora mais uma
xícara é posta. Irmãos, sobrinhos, cunhados, vizinhos... Quando todos se vão, restamos minha mãe e eu.
Duas vidas vão sendo projetas e criticadas. Isso tá bom isso não é certo faz
assim não se preocupa com isso e se...
À noite vou ao médico. Na
sala de espera conheço a maioria das pessoas. Como você tá tô bem e o trabalho
e a faculdade que Deus te ajude amém. Já no consultório, conheço o médico
também. É o pediatra. Cuidou de mim, dos meus irmãos e dos meus sobrinhos. Anos
depois, ele continua cuidando de mim, dos meus irmãos, dos meus sobrinhos e até
da minha mãe. Como você tá tô bem e o trabalho e a faculdade que Deus te ajude
amém.
Pela manhã vou fazer o
exame prescrito. No caminho, conheço a moça do salão, o cara da oficina, o
pessoal do posto, as mulheres do calçadão. No laboratório, conheço o dono, a
secretária, o cara que colhe meu sangue e até os cachorros que ficam por ali. Como
você tá tô bem e o trabalho e a faculdade que Deus te ajude amém.
Amanhã irei à manicure e
em poucos minutos serei atualizada de todos os últimos acontecimentos da região.
Quem morreu, quem nasceu, quem casou, quem traiu, quem foi, quem voltou.
Em casa novamente, 23
anos do mesmo discurso: Vem tomar café! Vem almoçar! Calça um chinelo! Por isso
que você fica doente! Não se cuida! Não come direito! Você precisa se
alimentar! Te falta vitamina! Te falta juízo!
Em Pirangi é assim, seja
em casa, na rua, no trabalho, tem sempre alguém olhando por você, alguém que te
conhece. Você pragueja por não ter muitas opções de lazer, mas sabe que na
lanchonete, na pizzaria ou na praça vai encontrar a maioria dos amigos, dos conhecidos,
o médico o cara do laboratório a moça do salão o cara da oficina o pessoal do
posto as mulheres do calçadão.
Em Pirangi, o bem-querer
tem sabor de café. Como você tá tô bem e o trabalho e a faculdade que Deus te ajude
amém aparece lá em casa pra gente tomar um cafezinho apareço sim té mais inté.
É claro que não aparece. É claro que quem faz e quem recebe o convite sabem
disso. Segundo o dicionário pirangiense chamar alguém pra tomar um café é dizer:
aparece lá em casa se precisar de algo, se tiver com algum problema, eu te
ajudo. Mas por que, então, não falar logo de cara? É que café é bom. Problema
não.
Em Pirangi, as
referências não são dadas por prédios comerciais, mas por residências. É lá
perto dos Pirondi, do lado dos Bossolani, lá pro lado da casa do Dr. Edson, na
frente do Dr. Rogério.
Em Pirangi, o médico o
cara do laboratório a moça do salão o cara da oficina o pessoal do posto as
mulheres do calçadão, conhecem minha família. Meu pai, minha mãe, meus irmãos e
sobrinhos. Em Araraquara, quê importa minha genealogia? Ninguém pergunta sobre
o emprego do meu irmão, ninguém sabe quem foi meu pai, ninguém vai dizer que me
conhece desde pequenininha ou vai mandar lembranças aos meus irmãos ou vai
exclamar como seus sobrinhos cresceram!
Eu amo Ararquara. A
cidade me deu formação, emprego, conhecimento, amigos, casa, liberdade,
amadurecimento. Mas Pirangi tem a lanchonete a pizzaria a praça o médico o cara
do laboratório a moça do salão o cara da oficina o pessoal do posto as mulheres
do calçadão, as cadeiras que conversam à noite, o pão café mussarela manteiga
requeijão, o depois eu te pago, o pois sim, o pois não.
Pirangi irá resistir à
modernização. No ano de 2100 quando os carros voarem e as pessoas se
robotizarem, Pirangi continuará com suas charretes e cavalos pela rua, com as
cadeiras em frente às casas, com o passa lá pra tomar um cafezinho.
Voltarei à Araraquara.
Mas quando me cansar, venho pra Pirangi. Quando me aposentar, venho pra
Pirangi. Pra ser ponto de referência, pra um cafezinho, pra falar que conheço
você desde pequenininha, pra que conheçam meus filhos, meus netos, pra ser
feliz em Pirangi.
*O título foi retirado da canção "Pirangi", de João Pacífico.
Um
ou dois dias por semana, sempre pela manhã, enquanto eu entorno amargamente meu
café, saboreio um cigarro e reluto em entregar-me a vida, ela, no quintal de
sua casa, estende as roupas recém-lavadas.
Mudei
para o terceiro andar deste prédio há mais ou menos três anos e já na primeira
semana no novo apartamento, enquanto olhava a vista da minha janela, pude
admirá-la fazendo esse metódico trabalho.
Tira
a roupa do balde, chacoalha, sobe no banquinho, estende, tira a roupa do balde,
chacoalha, sobe no banquinho, estende, tira a roupa do balde, chacoalha, sobe
no banquinho, estende, tira a roupa do balde, chacoalha, sobe no banquinho,
estende, tira a roupa do balde, chacoalha, sobe no banquinho, estende... ...
... ... ... quando fico cansado desse serviço, vou para meus afazeres diários e
deixo a mulher lavadeira com suas tarefas domésticas.
Observei-a
por um bom tempo até que numa festa aqui do bairro pude vê-la de perto e confirmar
a imagem (trazida pelas roupas estendidas no varal) que eu fazia de sua
família: pai, filho e mãe. A mulher devia ter entre trinta e cinco e quarenta
anos e, naquela ocasião, mostrava uma expressão forte e séria. Pude perceber
que o marido era mais velho que ela, mas ainda conservava traços de beleza, já o
menino, com mais ou menos oito anos, me pareceu um pouco franzino comparado ao
porte do pai e da mãe.
Antes
daquela festa meu prazer era observá-la e imaginar como ela e sua família
seriam, inventar situações cotidianas que eles poderiam viver, modos de agir,
enfim, idealizar suas vidas. Depois daquele dia não pude mais seguir com esses pensamentos, a família havia se tornado real, minha imaginação não era mais necessária.
Mesmo
assim continuei a observá-la, talvez por hábito, talvez porque vê-la entregue a
suas obrigações dava-me mais coragem para seguir com as minhas, não sei ao
certo.
Há
uns seis meses, quando eu chegava do trabalho, notei um grande alvoroço na rua.
Indaguei a um homem que estava por ali o que tinha acontecido e ele me disse
que um bêbado atropelara com seu carro e imprudência um morador do bairro.
Ele sabia quem era? Não, não sabia.
Após
esse incidente fiquei um tempo sem ver a mulher lavadeira e passei a olhar
através da janela à tarde também, na esperança de que ela tivesse mudado o
horário de lavar as roupas, mas foi em vão.
Até
que um dia, pela manhã, ela apareceu novamente. Senti-me satisfeito e aliviado pois, assim, a vida pôde voltar a
sua rotina, eu no meu quarto, ela no seu quintal. Houve, porém, uma
mudança: seu trabalho diminuiu, já não estende mais as roupas do filho.
Ana,
venha cá, venha! Deixa eu te ninar..... assim.... te pegar no colo, ter você
aqui, pertinho de mim, assim pertinho, pertinho..... depois te deito na cama e te
vejo dormir..... tão linda você era, Ana................. tinha os cabelos
enroladinhos, bem enroladinhos......... tão lindos! Por que você não deixa seus
cabelos enrolados, minha filha? São tão lindos........ Vem, Ana, que eu arrumo
pra você.... abra aquela gaveta ali e pegue uma fita vermelha.... vai ficar
lindo, Ana! Depois vamos no parque! Coloca aquele seu vestidinho florido.....
não, Ana, esse não! Aquele que tem um rasguinho na barra... ninguém nem
percebe.... Vamos! Você pode brincar no balanço, na gangorra, no gira-gira e se
você se comportar, depois vamos na sua vó................ Nossa, Ana, quanto
tempo não visitamos sua vó!!.................................. quanto tempo mesmo?
Ah, sim.... agora lembrei...... desde que ela morreu...........
coitadinha....... deve sentir nossa falta...... vamos, Ana, vamos! Não! Não!
Não! Não! Espera, Ana! Espera! Seu irmão, cadê? Cadê, seu irmão, Ana? Pedro!
Pedro! Pedro! Cadê o Pedrinho, Ana? Cadê? Vocês se foram e me deixaram aqui,
sozinha...... são uns ingratos! Me sugaram enquanto precisavam e depois, quando
já estavam prontos, voaram pra longe! Tudo bem... eu entendo... um filho
precisa seguir seu destino, encontrar seu caminho, fazer sua vida.... mas tudo
o que uma mãe espera é que às vezes ele retorne com uma migalha de amor pra lhe
oferecer..... migalhas, Ana! Migalhas! E nem isso vocês me deram! São uns
ingratos! Ingratos! Suma daqui, Ana! Suma daqui! Vai, Ana! Vai! Vai ver se
Pedro já chegou do trabalho................................ meu filho.................
tão bom moço........ tão lindo....... morrer assim..... Pedro não merecia...
não merecia... meu Deus, tivesse levado eu! Eu! Não, Pedro! Pedrinho, minha
joia..... meu amado...... educado, inteligente, trabalhador.... por que, Pedro,
meu Deus, por quê? O único que puxou pra mim....... você e José são iguais ao
seu pai, Ana! São todos iguais! Todos!............... Por que eles crescem, meu
Deus? Ficassem pequenos e eu tinha todos aqui, protegidos, acalentados....................
Ana, termine logo esse almoço antes que Pedro e seu pai voltem do serviço! José
não vem, fugiu de casa! Outro dia estava na TV com uns policiais..... seu irmão
é policial, Ana? ............ Deve ser bandido.... igual seu pai.......... mas
a diretora ligou, Zezinho brigou na escola de novo, vou lá ver o que aconteceu
e pego ele! Pedrinho aqui com febre e Zé brigando.......... e cadê seu pai pra
me ajudar? Deve estar no bar.... no bar, Ana! No bar! Vai chamar seu pai, Ana!
Vai! No bar! No Bar, Ana! ...................................................Não!
Não! Não! Não! Espera, Ana! Espera! Venha cá, venha! Deixa eu te ninar.....
assim.... te pegar no colo, ter você aqui, pertinho de mim, assim pertinho,
pertinho.... pertinho... pertinho.. pertinho.
Na sala, a espera era longa. Uma mesa no centro guardava algumas
revistas.... anúncios, atrizes, novelas.... nada que maquilasse o tempo. Um
vaso de flores artificiais também repousava ali. As paredes aparentavam idade
avançada e uma TV, sem som, reproduzia algumas imagens.
O ambiente estava sufocado de pessoas. Tinham uma aparência cansada e
pensativa, as faces desfloridas e os ombros curvados.
Um homem batia os pés no chão acompanhando o compasso de uma música
inexistente, uma criança chorava, alguém fazia cliks com uma caneta, um
ou outro bocejava, o ventilador dava uns estalidos e a porta do banheiro batia
por conta do vento. Tudo isso formava uma orquestra infernal e foi com alívio
que ele ouviu a secretária chamar seu nome.
Entrou na sala onde a revelação vestida de branco o esperava. Os quadros de
paisagens que adornavam as paredes e o jardim de inverno que havia ao fundo transmitiam
uma fria paz.
O médico falava-lhe sobre uma doença incurável frente a qual a medicina
podia apenas manipular o tempo, acrescentando-lhe mais alguns meses ao
calendário. O doutor apresentava uma expressão triste e séria que tinha a
convicção que a regularidade do uso lhe dera.
Após ouvir toda a explicação sobre o que fizera de seu corpo um alojamento
e que retribuía a hospitalidade com a morte, se encaminhou para a porta e antes
de sair ouviu o médico aconselhá-lo a aproveitar o tempo que ainda lhe restava
visitando a família, por exemplo.
Saiu à rua, viu uma lanchonete que ficava em frente ao consultório e caminhou
para lá. Havia poucas pessoas ali, o sol ardia e o calor fazia suar, mas mesmo
assim pediu um café. Enquanto olhava os carros que passavam e o mormaço que
saia do asfalto, sorveu o primeiro gole pensando como aproveitaria seu tempo se
não tinha uma família para visitar.