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Poema em branco e preto

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Quando a porta abriu e a claridade entrou,
a poesia, companheira do homem,
esgueirou-se para o escuro que inda restou.

Esquecida, ela via nossas acrobacias solares,
os eclipses celestes e os tons que antecedem
o entardecer de todas as amizades.

Quando a porta fechou e anoiteceu,
a poesia, esperança do homem,
alargou-se e preencheu-se do breu.

Lembrada, esqueceu a traição de outrora,
tomou minhas mãos, murchas de desdém,
e guiou-me pela noite cá dentro e lá fora.

Outros crepúsculos virão até que reste
a poesia, compreensiva do homem,
e me leve aonde não há porta que abra ou feche.


Absolvição da Poesia

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"Meia-noite em Paris" de Woody Allen

O homem navegou sobre as águas
e não provou
o sal de suas ondulações.
O homem andou pelos campos
e não sentiu
a paz que brotava do chão.
O homem chegou à cidade
e não notou
as almas que suportavam corpos.

Um dia o homem parou
para ver a poesia
transcrita
nas páginas numeradas.

“Que letras tortas são estas que falam e não entendo?”

Ouça, homem, é a palavra que não vês?


Um bicho intelectualíssimo

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Não te enganes, não há trabalho aflitivo como o de ser poeta.

Este ato de alinhar catástrofes,
lapidar a linguagem e a vida,
edificá-las no alicerce das emoções?
Não.
Isso se tira nas letras.
Estuda, pesa, cava, guarda, testa...

Nunca te disseram que o poeta é um bicho intelectualíssimo?

Martírio, até agora, não há.
Pois bem, aqui o tens: a pena do poeta é a inconstância.

Este agora espero, agora desconfio, agora desvario, agora acerto,
que bem antes de Camões se sentia e o faz feito máscara grega.

Uma simples resposta que se demora,
de uma pergunta sem lá muita importância,
fá-lo preferir a morte ao tormento da espera.

Nunca te disseram que o poeta é um bicho intelectualíssimo que se alimenta de paixões?

Mas a morte não vem.
Morrer assim? No tempo e na carne?
Não.
Suicida-se parcialmente em copos e cigarros e versos.
Até que a resposta venha.
E põe-lhe o sorriso no rosto.
Até que outra pergunta seja feita.

Nunca te disseram que o poeta é um bicho intelectualíssimo que se alimenta de paixões e de covardia?

Ao encontrar um destes espécimes, indaguei:
“Se há tanto mal nisso, por que não trocar o ofício?”
Para o meu espanto, riu-se:
“Que nada! Desce mais um amor enquanto compro mais cigarros”.

É que nunca me disseram que o poeta é um bicho intelectualíssimo que se alimenta de paixões, de covardia e da ruína de si mesmo.

Mote e glosa

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Porque repousas em sonho,
enquanto vigilo no escarlate de tuas mãos
e porque renasces para o imprestável,
enquanto me presto a colorir tuas ilusões.
Porque edificas proezas, conquistas,
enquanto eu sou o eco que as reverbera
e porque a boca te diz no pretérito,
enquanto as mãos te pensam no presente.
Resguardo-me em poesia.
Imprimo-me no papel com reminiscências de ti, de mim,
e daquilo que ninguém se atreveria a chamar de nós.
Porque essa ninharia, atirada à margem, chamada 'poeta',
se contenta em receber o reflexo do amor que tu dedicas à poesia
que nasce de suas chagas.

Poemar

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“Onde está a poesia?”, inocentemente, alguém perguntou.
“A poesia está nas palavras”, brincou O Menino.
“A poesia está nos fatos”, afirmou O Poeta.
“A poesia está no ser”, retrucou O Filósofo.
“Não. A poesia está nas coisas!”, bradou um crítico.
Eu, se tivesse voz, sussurraria:
A poesia não precisa de refúgio, meus caros.
Ela, simplesmente, está.

Poemas de um sábado descartável com Francisco Alvim

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0. Podia Ser Pior.
Ou não.
Estudos
Desconhecidos
Apontam:
Jovens
Adultos
Com plobremas
Sociais e
Diccionais
Possuem um futuro
Singular.

1. Sente Saudade?
Eu não,
(as torneiras silenciosamente
fechadas,
os quadros racionalmente
alinhados,
as louças claramente
limpas,
os tapetes perfeitamente
estendidos)
a casa
Sente.

2. Quer Companhia?
O Vazio ocupou
E S P A Ç O.

3. Eu Posso Explicar.
Explique-se,
mas seja explicativa.

4. Quer Sair?
Nas ruas
a incerteza
te espreita
passo
a
passo.
Um homem pigarreia palavras de amor esquecidas.
Não.

5. Você Não Liga?
Ligo.
Ninguém atende.

6. Afazeres.
Perdão, a disposição funciona somente em horário comercial.

7. A Porta.
Da geladeira
Abre e
Fecha
Abre e
Fecha
Abre e
Fecha
Abre
até que eu queira o que não tem.

8. Com Que Roupa Eu Vou?
Qualquer
uma
que sirva.

9. Mercado.
Deseja mais alguma coisa, Senhora?
Um abraço, por favor.

10. O Ministério Da Saúde Adverte:
Este produto contém substâncias tóxicas que levam à falência.

11. TV.
Antes só do que mal acompanhado.

12. Chat.
E aeeeee, gata?!?!?!
Quer tcccc?!?!?!
rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
...
...
...
Queria.

13. Fim.
A Noite e o poema
não têm.

Apetite

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Já não suporto o fardo da rotina,
a falsa paz do mundo às avessas,
assistir sempre a mesma comédia
e só amar as belezas efêmeras.

Já não suporto o sabor das palavras,
os olhos cansados da mesma vista,
fixar num mesmo chão minhas pegadas
e não ouvir a voz daquilo que atrofia.

Desejo a incoerência do existir
sem tempo, a paz de poder estar vazio
e a liberdade de não ter pra onde ir.

Desejo, afinal, um doce alívio
e se algo ainda possa me afligir,
que a vida viva seja meu cilício.

Soneto a ser encaminhado ao departamento competente

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Man Writing - Oliver Ray

     A ideia já se foi há muito tempo.
     O que há agora são frases perplexas
     e vãs, discutindo e teorizando
     sobre a incapacidade do poeta.

     Olham-no de sujeito a predicado,
     apedrejam-no com pontos finais,
     e tudo com o direto objetivo
     de crucificá-lo cada vez mais.

     E o poeta que chegou a pensar
     numa obra de sutil significado,
     vê-se, subitamente, encurralado

     por essas insensatas em negrito.
     E então, depois de muito matutar
     compõe um soneto para reclamar.

Presença

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Os olhos pairam, mas não enxergam o que a visão olha.
Os ouvidos pulsam, mas não escutam o que a audição ouve.
As mãos projetam, mas não edificam o que a situação ordena.
A vida passa numa fotografia que não revela
aquilo que foge
aos olhos, ouvidos e mãos
de quem folheia um álbum de fotos
qualquer.

Poema de Aniversário

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Aspiro o silêncio sepulcral da manhã e me preencho de 
vazio.
O horizonte permanece na paz
inabalável
daquilo que existe.
Caminho por entre os mármores frios
e a morte esbarra nas flores que jorram dos vasos.
Toco na pele fria da moldura que encarcera um sorriso.
Somos dois estranhos.
Esboço algumas palavras.
Sinto os olhos úmidos.
Uma lágrima nasce, mas é ríspida demais para se entregar ao chão.
Volta ao útero de onde veio.
Invejo a humildade do orvalho que se entrega ao abismo.
Penso no passado e me orgulho do fracasso que sou.
Despeço-me com promessas e pedidos.
Sigo meu caminho a pensar quando voltarei ao pó
e a manhã repousa com a complacência de quem ambiciona apenas
entardecer.

II

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Eu amo.
E amo com uma ferocidade e loucura tamanhas,
que só não saio por aí
rodopiando pelos ares
(feito balão que se esqueceu de amarrar a boca),
porque escrevo.
Esse lirismo comedido – virtude pós-moderna –
não me serve.
Eu sou um fraco.
Mas prefiro a fraqueza do amor à robustez da indiferença.
O arquiteto que me perdoe, mas minha construção é feita de tênue alvenaria.
Daquela que com o mais casto toque sai voando,
e pousa
em qualquer terreno,
afável ou grosseiro.
Eu amo.
E amo tudo quanto existe e é passível de amar.
E invento também.
Porque a realidade não me basta.
Crio venturas e desventuras,
verossímeis ou surreais,
não há disparate no meu mundo,
pois tudo é belo quanto a mulher que passa.
Eu amo!
E amo aquilo que fere, que é áspero, árduo, indócil,
porque amar é humano,
mas padecer por amor...
é celestial.

I

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Um dia aprendi com um moleque,
Mestre,
que ser inútil tem lá suas utilidades.
Passei assim. 
Então.
Portanto.
Me engrandecendo de inutilidades.
Porém,
(em certo quando)
ao meditar inutilmente,
me vi útil pra ser triste
(pra ter nó no peito e aperto na garganta).
Senti, então, minha cachoeira de inutilidade útil
cair-se
em mar de utilidade inútil
e utilmente entristeci.
Foi então que inutilizei minha tristeza
e fiz dela palavras.
Coloquei num poema torto,
desajeitado, útil, inútil, pouco importa, tanto faz...
Triste.

Soneto Incerto

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Procura-se o certo, até a vã certeza 
de que é melhor o fim, mesmo que seja 
antes do facultativo começo. 
Abstrata forma, deixa tudo cheio, 
 
pé, pau, pele, placenta, pulmão, perna... 
qualquer vão vazio ou brecha, onde possa 
se infiltrar e encontrar um reservado 
lugar, o qual estaria completo 
 
com essas coisas que não satisfazem: 
angústia, ira, amor, desassossego... 
Mas mesmo que haja aqueles que dizem 
 
que de certeza estar-se preenchido 
é o que aspira o homem, vem a vertigem 
de exaurir-se e ser só ilusão e vazio.

Despertar

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Quando adormeço
O mundo muda
De mundano a maléfico
Na massa amórfica que é existir

Enquanto adormeço
Ouço vozes
Que insistem em falar
Coisas que não escuto

Enquanto adormeço
A vida passa
Logo aqui ao meu lado
Como quem diz adeus com o olhar
E olá com os lábios

Quando adormeço
Há alguém na sala
Assistindo o meio de algo
Que sempre tem o mesmo fim

Assim como a vida
Que se vive
Só para saber se vale a pena

E quando acordo
O mundo está diferente daquilo que foi um sonho
Não ouço vozes
A vida passou
Não há ninguém na sala

Então volto
E adormeço sobre o poema
Que é a extensão da vida
E daquilo que adormece.

Obs: Pintura "Dream Caused by the Flight of a Bee Around a Pomegranate a Second Before Awakening" de Salvador Dalí.

Pensamento Noturno I

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Só falo para não dizer.
Solto palavras,
paradas,
pausadas,
no tempo daquilo que se quer escutar,
Só ando para não caminhar.
Passos largos, apressados, desligados,
para chegar ao ponto de partida.
Só olho para não ver.
Olhar desafinado, desafiador, sedutor,
que olha aquilo que deseja, mas não sabe decifrar.
Só escrevo para não ler,
ou
Só leio para escrever.
Já nem sei mais.
O poema acabou antes da conclusão.

Jaraguá

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Gosto de andar por aí, distraída,
despercebida, desprotegida.
Gosto de ser o que sou, o que veem,
o que pensam e o que sentem.
Gosto de ser legal, de fingir ser legal,
e de me irritar com isso.
Gosto de amar, apaixonar,
odiar...
Gosto de pensar, de pensar em não pensar,
e de fingir que penso.
Gosto de ser, de existir,
e de esquecer.
Gosto de olhar nos olhos, abaixar a cabeça,
e fingir que não é comigo.
Gosto de ficar por aqui, lá, ali,
aonde quer que ninguém esteja.
Gosto de ser o que sou, o que fui,
e o que serei,
Talvez serei.
Gosto de tudo, de nada,
de do nada, tudo ou nada.
Gosto do mundo, de você,
e de mais ninguém.