O voo das Borboletas

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Estudo sobre o voo das borboletas revela que,
mesmo quando voam aos ziguezagues,
elas sabem precisamente para onde vão.

       Tinha 19, 20 na cabeça e 16 no corpo. Falava pouco, embora eu nunca tenha ouvido sua voz. Vi pela primeira vez há algum tempo, foto, e mesmo assim consegui contemplar tudo. Seu cheiro, carne, teimosia, sonhos, orgulho, defeitos que ignorei e qualidades que sempre fiz questão de exaltar.
   Intrigou-me, despertou-me, exilou-me em mim mesmo. Não sabia quem era ao certo e mesmo assim achava que sabia tudo. Que poderia falar sobre toda sua vida, seus medos mais íntimos e vontades mais luxuriosas e egoístas.
   Surpreendia-me com sua determinação e intensidade. Sabia para onde estava indo, não importaria se lhe mostrassem o caminho errado. Estava ali para aquilo, sabia, fazia.
   Tinha muitos sonhos dentro de si, e mesmo tendo baixa estatura eles cabiam ali, às vezes saiam pelos olhos, pelos dedos, até pelos pés. Mas cabiam ali. Guiavam sua vida, suas escolhas, seu fim.
   Era firme e maleável ao mesmo tempo. Era forte e sensível. Era inteligente e ignorante. Certo e errado. Confuso e claro. Todos opostos estavam ali, eles se negavam e se afirmavam.
   Não adiantava lhe contrariar, tinha certeza do que pensava e ponto. Fim de assunto.
   Pessoalmente vi umas duas, três vezes. Mas não importa, nunca importou. Era tão presente que sempre podia olhar, imagem nítida, com todos os detalhes, falsa perfeição, imutável.
   Era eu diferente de mim. Era aquilo que queria ser, era aquilo que não conseguia ser. Juntos, seríamos completos. Sozinho, eu não seria.
   Mas não, eu não podia tocar, ver, dizer: “Ei! Vem, eu sei o que você quer ouvir, sei do que precisa. Ei! Sabe aquilo que você procura? Eu sou, eu posso ser”. Mas não, não podia. Tinha medo, medo da metamorfose que faria em mim. Queria a mudança, mas era fraco demais para enfrentá-la. Fraco demais para olhar nos olhos, para viver com o fato que tudo um dia termina.
   Então ficamos assim, eu a espiá-la de longe, ela a viver normalmente. Ela a ensinar, eu a aprender até o que já sabia. Ela a ditar regras, eu apenas a obedecê-las.
   Às vezes ela chegava mais perto. Cautelosa. Eu, na minha ânsia de adoração a espantava e ela fugia. Mas mesmo longe, descobriu o que há de melhor e de mais mundano em mim. Descobriu todas as palavras não ditas, todos os sonhos proibidos, tudo que não era, mas poderia ser.
   Eu a admirava. Seus erros: aceitáveis. Virtudes: superiores. Era a única em uma multidão.
   E assim, sem perceber, me transformei. Rompi meu casulo. A metamorfose da qual tinha medo chegou astuta, paciente, ligeira e de mim se apossou aos poucos.
   Ela também mudou, embora não aparente. E hoje, já não sei o que lhe resta de vida. Mas ela ainda está ali, sempre a dizer bom dia, sempre a dizer coisas que não me interessam. Ela está ali, todo dia a me lembrar que as borboletas sempre voam.

Obs: O estudo mencionado na epígrafe foi publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society.


Luan

1 opiniões:

MATTOS , C. P. disse...

Eu adoraria ler "over and over again", independente de quem tenha escrito. ;D

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